quinta-feira, 15 de junho de 2017

Aforismo 26

O outro nome de deus é: Desejo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Submersa

Ele chega repentino dizendo
 - amada -
e o amor como água se despeja em mim
 - me afogo.
Viro bicho inquieto
eu que sou só um nada sem flor
uma coisa à toa.
Me ama por quê?
E eu, que sei amar um galhinho qualquer de mato que cresça por perto,
quase pressinto que ser amada é um dom justo.
E eu, que nado e boio sem esforço,
me entrego ao rio intenso que me envolve.
E bebo em goles grandes a água que só aumenta.
E no avesso de mim as correntes se entrecruzam.
Amada, me desfaço.
Amada, me rebroto.
A Tua seiva-amor me alimenta.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Presença

Tudo em mim está aberto agora
vejo a belezinha besta de cada flor do meu lençol
sinto o cheiro do bolo que fiz na semana passada
recebo o suor do homem que já se trocou
pressinto a lua crescente pela janela fechada
expando-me
livre
respirando, respirando
inteira.
Porque inteira sou no Teu sopro
Teu corpo.
Aberta
qual peneira que não carrega  água -
que filtra a luz que cega
e me expõe ao avesso diante de Ti.

E o Teu halo me arrepia
dentro e fora
no peito e na pele.

Ah, Deus, me sossega dessa alegria,
vai-Te embora,
me deixa dormir.

Aforismo 25

Deus é onde eu descanso.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Aurora

O pequizeiro está sem folhas,
sem galhos, só tronco.
Olho e choro, quem fez assim?
Não há ninguém por perto, eu e ele, só.
Tronco ferido, eu partida.

O pequizeiro foi podado.

Inteiramente podada, eu sigo.
A dor lancina e faz sangrar
cada cicatriz.
Junto à dor, a espera.
Foi Ele quem fez a poda.
E eu não sei nada do novo por vir.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Quero

Quero laços.
Tropeço sempre.
Mas ainda quero. Quero laços.
Tropeço, caio e quero.
Ser estranho, lagarto na pedra quente.
Ser só.
Sozinho.
Mas quero laços. Quero.
Desfaço, desmonto, desisto, mas quero.
Pari, criei, amei.
Compartilhei, ajudei, dei.
Apoiei, pedi, chorei.
Acompanhei, senti, vi.
Ouvi.
E ainda quero, quero laços.
Da pedra quente me lanço -
para a pedra quente eu volto,
ser estranho que sou.
Mas quero, quero sempre, quero laços.

terça-feira, 21 de março de 2017

O que sou

A identidade é a flor perdida no descampado.
O detalhe.

O que não é frágil
é o que não é o eu em mim.